Vivemos
num país maravilhoso, sensacional, abençoado por Deus e, por
enquanto, não amaldiçoado por Alá. Mas, em termos de influência
cultural sobre outros povos, somos um país marginal, moramos nos
cafundós do Judas. Pessoas de outros países não conhecem as
referências daqui, as particularidades de nosso idioma e de nossa
cultura. E isto inclui os jurados de festivais internacionais de
propaganda, o que nos cria dificuldades extras quando queremos fazer
bonito lá fora.
O
problema é bem menor quando baseamos nossa propaganda em imagens.
Imagens são universais, e os anúncios calcados nelas são fáceis de
entender. Uma foto de mesa é uma foto de mesa em qualquer idioma.
Mas
os anúncios baseados em uma construção mais oral, mais verbal,
característicos da propaganda brasileira, precisam ser traduzidos com
o mínimo de perda e o máximo de
compreensão.
E
não basta simplesmente traduzir burocraticamente. A tradução
poderá estar correta e ainda assim não estar necessariamente boa. O
anúncio precisa conservar, mesmo vertido para o inglês, todo o
frescor, a malícia, a informalidade e a leveza que caracterizam a
melhor propaganda produzida no Brasil.
Só
que não existe tradução perfeita. Isto porque a linguagem é a
ferramenta que um povo usa para pensar. Se a sua cultura e forma de
pensar têm particularidades, isto estará necessariamente expresso na
linguagem. Os esquimós, por exemplo, conseguem enxergar sete cores
diferentes de neve - e têm um nome para cada uma delas. Imagine a
dificuldade de verter para o português o título de um redator esquimó
que brincasse com os sete tipos de branco que ele consegue ver. Por
outro lado, os brasileiros costumam dizer "pois não"
quando querem dizer sim. E "pois sim" quando querem
dizer não.
Cientes
das dificuldades da tradução, os italianos têm um adágio que diz: "traduttore,
tradittore". Ou seja, "tradutor, traidor" (viu?
minha tradução do italiano para o português até que está correta,
mas perdeu-se a sonoridade quase idêntica das duas palavras,
responsável por grande parte da graça original da expressão).
É
por ter a consciência de todas essas dificuldades - e mesmo assim
continuar desejando o reconhecimento internacional para a nossa
propaganda - que eu gosto de trabalhar com a Let's Talk.
Renato,
Allan, Lilian & Cia conseguem fazer com que as perdas
inevitáveis da tradução sejam as menores possíveis. Seja por
convívio freqüente com publicitários (tadinhos), seja por talento
inato, eles estão cada vez mais familiarizados com a prosa
publicitária. Em português ou inglês. Acho que eles pegaram a
manha. Com isso, anúncios traduzidos por eles têm sobrevivido com
dignidade. A ponto de, juntos, termos conseguido trazer Leões de
Cannes com peças fortemente calcadas em texto, algumas até all type.
E isto num Festival muitas vezes composto por jurados que, se não
chegam a ser esquimós, estão bem perto disso.
Eugênio
Mohallem
Redator e VP de Criação da Fallon PMA São Paulo.